JAIME MOISÉS
Nove décadas de existência não é para qualquer um. Prestes a completar 91 anos em julho, ele mantém uma inabalável fé em Deus de que dias melhores virão. Cidadão uberabense, uberlandense e conquistense, um “leão” querido e respeitado por seus inúmeros amigos e companheiros de Lions Clube, dono de uma memória privilegiada capaz de guardar datas de fatos acontecidos décadas atrás com exatidão de detalhes, Personalità entrevista o estimado Jaime Moisés, que nem mesmo diante deste “pandemônio” – como ele se refere à pandemia – deixa de acreditar que tudo isso vai passar.
Em que ano o senhor chegou em Uberaba?
Vim para Uberaba em fevereiro de 1942, deixando minha família em Santa Juliana, para estudar interno no Colégio Diocesano, onde fiz exame de admissão para ingressar na 1ª série ginasial. Em dezembro de 1946, finalizei meus estudos naquela instituição.
O senhor é filho de sírios. Quantos irmãos vocês eram, todos nascidos no Brasil?
Sim, meus pais, Banuta e Abrahão, vieram do norte da Síria pelos anos 1912, em porão de navio, fugindo da guerra. De Santos, vieram de trem até a estação da Palestina, e de lá para Santa Juliana, onde se estabeleceram, acreditem, foram no lombo do cavalo. Estava esperando por eles meu tio Domingos, irmão de meu pai, que já morava na região. Éramos oito irmãos, todos nascidos no Brasil. Hoje somos quatro vivos, residindo em Uberaba, sendo minhas irmãs Mariinha, Jandira e Norma.
Como o senhor iniciou sua vida profissional em Uberaba?
Quem primeiro me deu oportunidade profissional em Uberaba foi o querido e saudoso Pedro Elias Miziara; na sua tradicional Casa da Sogra trabalhei como vendedor. Com o falecimento de meu pai e do meu irmão Benedito, em 1944 e 1946, respectivamente, tive que retornar para Santa Juliana em 1947, tentando suprir a ausência de ambos. Foi aí que, em 1948, mudamos para Uberaba, minha mãe, minhas irmãs Nazira, Julia, Iesmin, Mariinha, Jandira e Norma. Para ajudar na mantença da família - minhas irmãs já trabalhavam com alta costura naquela época -, concursei no Banco da Lavoura, por volta de 1951, e depois no Banco Hipotecário. Também fui auxiliar de escritório para o dr. Mario de Almeida Franco. Me formei técnico de contabilidade em 1954, sendo o orador da turma na tradicional Escola Técnica de Comércio José Bonifácio.

Ao se casar, o senhor e dona Alice foram morar no município de Conquista, onde inclusive chegou a exercer mandato de vereador e presidente da Câmara Municipal. Naquela época, como era a função legislativa?
Mudamos, Alice e eu, para a Usina Mendonça, no município de Conquista, em 1957, onde fui contador por três anos. Convidado pelos comerciantes de Conquista para assumir as suas contabilidades, mudamo-nos no início de janeiro de 1960 para aquela cidade. Fui eleito vereador pelo PSD em 1961, sendo presidente da Câmara de Vereadores. Mas um detalhe: naquela época o cargo de vereador não era remunerado. Em Conquista, fundamos uma escola técnica de contabilidade gratuita.
De volta a Uberaba o senhor ingressou na Fazenda Estadual, onde se aposentou. E após sua aposentadoria, dedicou-se a novas atividades?
Ingressei por concurso na Fazenda Estadual em 1963, como agente de Fiscalização; depois galguei, também por concurso, o cargo de fiscal de Rendas, nele permanecendo até minha aposentadoria, em 1982. Após, entre outras atividades, administrei os hospitais Vera Cruz e Santa Helena.
Quando o Lions Clube entrou na sua vida e qual a sua visão sobre o que é pertencer a um clube de serviço à comunidade?
Em junho de 1967, tive a honra de ser convidado a ingressar no Lions Clube de Uberaba, tendo exercido vários cargos, inclusive a presidência. Em 1987, fui eleito o primeiro governador do distrito L-31 (hoje LB-3), que engloba cidades do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e Distrito Federal. No ano leonístico 87/88, Alice e eu viajamos cerca de 30 mil quilômetros, em visita oficial aos 58 clubes existentes à época, levando a todos nossa missão de servir ao próximo desinteressadamente. Naquele ano, tive o prazer de levar o nome de Uberaba para o outro lado do mundo, ao ser referendado governador de Lions Internacional na convenção mundial realizada em Taiwan. Felizmente, continuo ativo como leão até hoje.
Durante muitos anos o senhor foi diretor do antigo colégio São Judas Tadeu. O que trabalhar com a educação e com os jovens lhe oportunizou?
Antes de adquirirmos o Colégio São Judas, fui administrador do Colégio José Ferreira por quatro anos. Trabalhando com educação tive a feliz oportunidade de ajudar a formar várias gerações de uberabenses; foram muitos alunos sem condições financeiras de frequentar uma escola particular que, felizmente, pudemos ajudar a concluir os estudos. Ainda hoje, quando encontro-me com alguém que estudou, seja em Conquista ou Uberaba, e com os quais tenho a honra de manter contato, reforça em mim a certeza de que o Brasil só se tornará uma Nação mais justa investindo na educação desde tenra idade.
Então, em 1986, o senhor foi um dos co-fundadores do Jornal de Uberaba, primeiro jornal off-set da cidade. Conte um pouco sua experiência no segmento da imprensa.
O Jornal de Uberaba chegou com o propósito de dotar Uberaba de um veículo impresso moderno, imparcial, com opinião, e nas mais de duas décadas que estive na direção do jornal, acho que conseguimos contribuir para o desenvolvimento da cidade, apresentando seus problemas, mas também mostrando as possíveis soluções, fazendo do jornal um porta-voz dos anseios da comunidade. Fico muito feliz ao ver, por exemplo, que a minha querida Luciana Vitali, que trabalhou conosco no JU, hoje dá prosseguimento atuando na mídia.
Aos 90 anos e tendo já vivido tantas emoções, eis que nos deparamos com uma pandemia, ou, como o senhor gosta de dizer, com um pandemônio. Já vacinado – senhor Jaime tomou as duas doses da CoronaVac -, qual a mensagem de esperança que o senhor nos deixa?
Uberaba é uma cidade que me acolheu e à minha família com muito carinho e à qual sou muito grato, e tenho certeza que dias melhores estão por vir. Que cada um tenha a responsabilidade de fazer a sua parte, tomando todos os cuidados, vacinando, e acreditando que isso vai passar, uns ajudando aos outros, porque é assim que devemos ser, uns pelos outros, como bem nos ensinou o Cristo. Tendo vivido mais de nove décadas, posso asseverar que, como disse certa vez Mahatma Gandhi, quem não vive para servir, não serve para viver.
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